Sunday, April 08, 2007

Com a Licença Poética das Águas


© Nathan de Castro



Quando nasci, caiu um temporal em Olhos d’Água.
Trem mineiro, coisa de janeiros, coisa de aquário,
verão: eu outono, sempre!
Não há anjo que se atreva a enfrentar tempestades
tropicais. As asas pesam.
Minha tia disse: __É feio, demais! Tem a cabeça torta.
Minha mãe falou: __ Poesia.
Raios, raios, raios e trovões.
Nasci homem, com os olhos rasos d’água, homem com
os olhos rasos d’água é coisa de outro mundo.
Não ouvi trombetas. Até hoje, ouço flautas, cavaquinhos,
guitarras, baixos e violões. Baleias me dizem sim.
Sem pedir licença, dobrei o cabo da boa esperança
e sobrevivi.
Sou dobrável e a minha tristeza veste a cauda de piano,
aquele, no qual Ray Charles teve a visão do nada.
Adoro Adélia. E Ray Charles, claro.
Cego é quem não vê a poesia de cada amanhecer
quando ouve: "I can't stop loving you" na voz do mestre.
O tempo passou. Tudo passa. Mas a vida é bela.
Já usei barba e bigode, agora resolvi mostrar a minha
verdadeira cara. Afinal, não me chamo Raimundo.
Meu DNA tem a forma de soneto, mas vez por outra, sou
surpreendido pelos climas outonais e clamo pelos delírios.
Droit & Croissant...
Toda a culpa está no vírus das palavras que vertem paixões.
Quando nasci, diabos, eu nem falava, mas já aprendia a poesia
das águas.

1 Comments:

Blogger Jade said...

Lindo, lindo.
Já conhecia nas, para mim, sempre é novo.
E lindo.
Jade

May 25, 2007 6:11 PM  

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