Saturday, July 29, 2006

Apenas Um Cachorro Ladra Na Canção


© Nathan de Castro


Os sonetos fugiram pela noite adentro e apenas
um cachorro ladra na canção da rua iluminada
pela lua cheia.
O poema não consegue dormir com o silêncio

dos paralelepípedos, e nem mesmo uma brisa,
para acalmar o verso atrapalhado.
Os livros espalhados pela casa estão mudos e

as lâmpadas acesas lançam sombras de libélulas
bailarinas nas paredes.
Sombras de poesia calada e com passos
desencontrados. Desencontros... Exatamente
a formação que as letras relembram na página
da música.
“Quanto tempo, pois é, quanto tempo...”.

Nada me foge à lembrança. Os olhos da poesia
de uma Estrela não se apagam em uma vida.
Precisam de muitas. E a solidão é amiga da memória.
“Quanta coisa eu tinha a dizer...”. Mas se já disse

tudo nos poemas!... Talvez eu não saiba falar
de amor com a caneta, ou não existam palavras
convincentes nas mãos do meu poeta.
Talvez pareça tudo mentira, já que de minha boca

as palavras não saltam os trilhos e tropeçam
em pedras e metáforas de minérios de ferro...
Sina de poeta das Gerais.
O telefone não toca!... Nenhuma mensagem

na caixa postal!... Silêncio!...
Ausência de motivos para escrever sonhos.
Apenas um cachorro ladra na canção.


Amanheceu e o sol revela novas sombras
no pátio ladrilhado de um velho soneto
repetitivo, triste e detonando bombas
nas mãos do meu poeta torto e irrequieto.

O verso livre e solto quase sempre assombra,
machuca as folhas brancas do sonho encoberto,
carece de alegria e, quando acende, zomba
de um louco prisioneiro sem sinais abertos.

“Quanto tempo, pois é, quanto tempo...”. A canção
mastiga o calendário e as rimas da ilusão,
enquanto um passarinho canta no arvoredo.

Feliz quem sabe o amor nos galhos da estação
e voa na poesia sem tocar o chão...
Ausência de palavras não lhe mete medo.



3 Comments:

Anonymous Lílian Maial said...

Mais um lindo poema, Nathan!
Destaco esses versos:
"Talvez pareça tudo mentira, já que de minha boca as palavras não saltam os trilhos e tropeçam em pedras e metáforas de minérios de ferro...".
Agradeço os comentários generosos no meu blog Cara a Cara.
beijão,
Lílian

July 29, 2006 5:54 PM  
Blogger NaldoVelho said...

Sensacional!!!!!

Muito bom meu amigo poeta

Naldo

July 29, 2006 7:46 PM  
Anonymous Izabel T. da Rosa said...

Agradeço a DEUS por ter um amigo tão especial quanto você poeta. A libélula é a minha marca, então me encantei com o verso:" ...Os livros espalhados pela casa estão mudos e as lâmpadas acesas lançam sombras de libélulas bailarinas nas paredes. ..."
Só mesmo um poeta com tal sensibilidade conseguiria expressar esse encanto.
Beijo bailarino para você.

July 30, 2006 7:53 AM  

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